Álcool e fumo no mergulho técnico de profundidade


Da Redação
30/03/2016

 

O uso do álcool e fumo é extremamente incompatível com o mergulho técnico, no entanto, muitos mergulhadores não se interam dos verdadeiros riscos inerentes a essas drogas e continuam utilizando-as uso antes e depois de imersões subaquáticas.

Tais práticas, principalmente para o mergulho técnico de profundidade, são altamente rejeitadas. É preciso conscientizar o mergulhador de que o entretenimento com o mergulho, apesar do ambiente descontraído (reunido com os amigos e, normalmente, em dias ensolarados) ser convidativo para o famoso “tomar umas” não é compatível com a ingestão de álcool.

Esta droga, aceita como lícita pela maior parte das sociedades, é um depressor das atividades do sistema nervoso central. As atividades perceptivas e cognitivas são seriamente afetadas pela ação do álcool. Estes efeitos também são fortemente percebidos durante o período da ressaca (mal estar geral que surge no dia seguinte à ingestão exagerada de álcool devido a uma intoxicação que provoca uma inflamação no sistema digestivo, afetando especialmente o fígado). Portanto a proibição ao mergulho também é requerida ao dia ou dias seguintes a uma bebedeira.

Tarefas que exigem maior complexidade e velocidade de raciocínio são diretamente afetadas pelos efeitos do álcool. Isto é válido, mesmo que a pessoa se sinta bem e que, aparentemente, não apresente alterações em seu comportamento.

Atividades que exigem nossa total atenção são rotineiras durante a realização do mergulho técnico. Portanto, é óbvio que este é mais um aspecto desvantajoso para o uso da droga antes e depois da realização de mergulhos.

Oxigênio (O2) e Nitrogênio (N2) podem causar alterações fisiológicas no sistema nervoso central quando respirados sob pressão e, como conseqüência, podem resultar em narcose e afogamento. Tais alterações são altamente potencializadas com o consumo de álcool.

O álcool também é um potente diurético e pode causar a desidratação do mergulhador. Sendo a desidratação uma causa comum de ocorrências da doença descompressiva (DD), a ingestão de álcool antes ou após o mergulho aumenta consideravelmente o risco do mergulhador ter DD. Como a doença descompressiva tem sinais e sintomas provenientes de alterações no sistema nervoso central, o uso do álcool pode mascarar esses avisos o que implicaria em uma diagnóstico tardio da doença. Atrasando os primeiros socorros e o tratamento e expondo o mergulhador a maiores riscos.

Quando sentimos frio, uma das primeiras reações do organismo é a vasoconstrição periférica que é normalmente vista como o processo integrante da termorregulação, isto é, a regulação da temperatura do organismo através de mecanismos homeostáticos, de equilíbrio. Quando há uma diminuição da temperatura no exterior, ocorre uma diminuição da temperatura corporal. Para contrabalançar esta variação, o complexo hipotálamo-hipófise (que recebe os avisos externos) envia uma mensagem nervosa que possibilita ao organismo gerar a vasoconstrição, e, consequente, diminuir a perda de calor para o meio.

Por induzir a vasodilatação, o álcool neutraliza a resposta fisiológica ao frio, o que provoca ainda mais perda de calor, e reduz a glicose sanguínea. Não obstante, a redução da glicose diminui o metabolismo para produção de energia e menor produção de calor.

As consequências são o aumento considerável de possível hipotermia durante e após a imersão

Na edição 188 da revista mergulho, na coluna da Divers Alert Network, o autor Dr. Eduardo Vinhaes, com muito mais propriedade do que eu, disserta claramente sobre todos os problemas decorrentes do fumo e seus malefícios ao mergulhador.

De forma geral o problema do ato de fumar em relação à prática do mergulho técnico de profundidade provém do fato do monóxido de carbono se ligar a hemoglobina cerca de 200 vezes mais rápido que o oxigênio. Tal fato reduz, consideravelmente, o transporte de oxigênio aos tecidos, podendo causar um quadro de hipóxia.

Outro agente nocivo é a nicotina que causa a constrição dos bronquíolos terminais do pulmão, o que aumenta a resistência ao fluxo do gás tanto para fora como para dentro dos órgãos respiratórios. Além de paralisar os cílios na superfície das células epiteliais respiratórias que, em condições normais, lutam para execrar as partículas estranhas.

Os efeitos da fumaça inalada produzem aumento da secreção na árvore brônquica e edema dos revestimentos epiteliais.

Os efeitos crônicos do fumo são ainda piores. Praticamente não existe um fumante crônico que não desenvolva um enfisema de variada gravidade, podendo ocorrer:

  • Obstrução dos brônquios terminais
  • Bronquite crônica
  • Destruição das paredes alveolares

 

Neste quadros o mergulhador pode sentir insuficiência respiratória e comprometer toda a troca gasosa tão necessária durante a parte de fundo e, principalmente, durante as descompressões de suas imersões.

Mesmos com tantos argumentos fortes pesando contra os hábitos de fumar e ingerir álcool antes e depois das imersões, muitos mergulhadores ainda insistem que estes não são atos danosos a sua saúde e em nada atrapalham a atividade subaquática.

É muito comum e, infelizmente, aceitável socialmente que pessoas se vangloriem do “porre” tomado na noitada anterior. Como se fosse um ato necessário para sua diversão. Fica a impressão de que ingerir álcool em demasia e uma prova de quem se divertiu de verdade. Sendo que a verdade é o que o excesso de álcool só é prejudicial em todos os sentidos (tanto para a saúde como para o convívio social).

Recentemente, após uma aula de águas abertas, tomei ciência de um fato que me surpreendeu muito negativamente. Instrutores técnicos, à frente dos alunos, se dirigiram a um bar para comemorar o fim do dia de trabalho ingerindo alguns tragos de pinga com limão. É lamentável saber que aqueles que deveriam ser modelos de conduta e do bom comportamento do mergulhador tenham este tipo de atitude.

Por estas razões sempre aproveito este espaço para criticar veemente a falta de profissionalismo e responsabilidade no mergulho.

Em contrapartida, ainda percebo que os sérios instrutores e agências credenciadoras não admitem fumantes ou uso de álcool em seus cursos técnicos de profundidade.

Portanto, se pretende praticar o mergulho de forma prazerosa, segura e acima de tudo saudável, nunca ingira álcool ou fume antes e após mergulhos. E se pensar bem, nunca o faça ao longo da vida.

Ótimos mergulhos sem fumaça e álcool para todos.

 

Foto: Shutterstock

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