Entrevista: Neal Watson


Da Redação
31/03/2016

Entrevistamos Neal Watson em Bimini, e de uma maneira divertida e informal ele nos contou um pouco sobre sua história de 60 anos no mergulho

 

 

 

Quando você começou a mergulhar, onde e por quê?

Foi há um longo tempo atrás… Este ano eu comemoro 60 anos de mergulho com equipamento Scuba. Minha primeira experiência com mergulho foi em 1953. Eu estava em um acampamento de verão com meu irmão mais velho em um local chamado “Blue Springs”, em Florida Spring, quando um cara com o porta mala de seu caminhão aberto, disse: “meu pai foi um mergulhador na segunda guerra mundial, um frogman, e eu tenho alguns equipamentos de mergulho aqui, alguém quer experimentar?” Logicamente ninguém respondeu nada, e como eu era o mais novo, eles disseram “O Neal pode experimentar isso!” . Na época eu já praticava mergulho livre. Era um equipamento antigo, com regulador com mangueiras duplas e um back pack flat. Eles amarraram o equipamento em mim, eu entrei na água e comecei a descer no spring de 78 pés, e pensei, “Esta é a melhor coisa que já fiz!” Esta experiência mudou a minha vida, foi incrível. Quando cheguei ao fundo, nos 78 pés, olhei para cima, e acho que por algum mal funcionamento do equipamento eu não consegui respirar, e pensei “isto não é bom” . Subi direto para a superfície e não tive nenhum problema, nenhuma embolia, Pulei para fora da água tossindo e todo mundo me perguntado como foi?? Eu disse “descer é fantástico, subir não é nem um pouco!”  Eu fiquei super animado e percebi que obviamente tinha feito algo errado, Meu pai tinha um amigo que trabalhava como mergulhador, e pedi que ele me explicasse o que eu tinha feito de errado. Ele disse: menino, você fez tudo errado! O que você tem que lembrar se você fizer isso novamente e não tiver ar nenhum lá embaixo é:  suba exalando o ar o tempo todo. Eu perguntei por que e ele disse:  “se você não fizer isso, você vai morrer!”. Esta foi minha primeira certificação básica individual. Eu fui fisgado pelo mergulho desde a primeira vez, e continuei mergulhando. Quando tinha 17 anos  fui para o Marine Corp e aprendi formalmente a mergulhar. Quando voltei para casa em Daytona Beach consegui um emprego no depto de polícia e mergulhei lá por alguns anos, quando tive uma oportunidade em Grand Bahama na área de segurança em um cassino. Isso foi em 1965, eu tinha 25 anos, e até então eu só tinha mergulhado em condições não tão favoráveis, exceto pelas Florida Keys. Sobrevoando as Bahamas, quando se chega nas águas rasas com todas aquelas tonalidades de azul, pensei “aqui é o paraíso, encontrei minha casa…” Lá conheci Fred Baldasare, que tornou-se meu mentor. Ele nadou o canal da Inglaterra por debaixo dagua, o Estreito de Gibraltar, isso na década de 60. Então começamos um negócio de passeio com barco de fundo de vidro/mergulho. O problema é que em 1965 a PADI não existia, NAUI tinha apenas começado, e 90% do nosso negócio era baseado em cursos no resort. Um dia eu estava deitado relaxando na piscina e Fred chegou, apresentou-se para os hóspedes ao redor da piscina como instrutor de mergulho, perguntando se alguém gostaria de experimentar mergulhar. Como ninguém respondeu, eu disse “eu posso tentar!”. Entrei na piscina, ele me deu algumas instruções básicos, demos algumas voltas na soltando bolhas  e eu saí dizendo “Uau, isso é fácil, qualquer um pode fazer!”. Assim conseguimos nosso primeiro grupo de mergulhadores e os levamos para mergulhar . Na semana seguinte trocamos os papéis: eu era o instrutor de mergulho e Fred era o “hóspede” repousando na piscina…risos…Foi asism que começamos o negócio.

Em 1967 eu tive minha primeira operação própria de mergulho em Grand Bahama. Fiquei interessado então  a quebrar o recorde masculino de mergulho com ar comprimido, que era de 390 pés, e continuei treinando por mais um ano, depois de ter ido a 325 pés com a Kitty, namorada de Fred. Bati o recorde 6 vezes não oficialmente até quebrá-lo oficialmente a 437 pés.

 

 

O que você sentiu? Conte mais sobre este mergulho

O problema com este recorde –  e é bom relembrar que estamos falando de um tempo onde o mergulho estava começando, e que na verdade eu até estava trabalhando com a US Navy em pesquisas sobre narcose com nitrogênio e fisiologia do mergulho – é que as chances de você se matar treinando para um mergulho como este são enormes, uma vez que a única forma de treinar é fazendo mergulhos profundos repetidamente, 5 mergulhos por semana, descendo até 380 pés . Mergulho profundo com ar é como estar num carro a 20 milhas/h, tomar uma dose de vodka, aumentar para 30 m/h, tomar outra dose de vodka, aumentar para 40 m/h, tomar outra dose e assim sucessivamente. Quanto mais rápido você vai, mais deveria ter controle, e na verdade menos tem. E assim é com o mergulho profundo com ar comprimido. Quando mais fundo você vai, mais narcose experimenta e uma situação que não seria nada a 60 pés, por exemplo perder a máscara ou o regulador, pode ser fatal a 300 pés. E então depois de 350 pés você nem percebe mais que está debaixo d’água. Você está alucinando tanto, e conforme você vai descendo mais fundo o ar fica tão grosso, como se você estivesse inspirando água, quase como líquido. A forma que eu pude alcançar este recorde foi desenvolvendo uma tolerância. Fazendo a mesma coisa várias vezes eu acabei desenvolvendo a tolerância a narcose, e o meu objetivo durante o treinamento era poder chegar lá embaixo, pegar um clipe e prende-lo no cabo. Provavelmente na metade dos mergulhos que eu desci a mais de 300 pés eu não me lembrava e voltava para a superfície ainda com o clipe. Eu posso vagamente me lembrar de uma vez, provavelmente perto dos 400 pés, onde eu tentei várias vezes acertar o clipe no cabo, e quando  finalmente consegui, parecia que eu tinha inventado a roda, que tinha sido uma das maiores conquistas da minha vida.

Eu estava preso pelo punho ao cabo que me levaria lá embaixo, como uma forma de poder recuperar o corpo caso algo desse errado. Não havia nenhum mergulhador de segurança, pois eles também estariam em risco. Então lá estava eu, preso ao cabo a 10 pés, e sabendo que quando puxasse o pino para descer as chances seriam de 50% que eu poderia morrer nos próximos 3 minutos. Além do mais você não tem o privilégio de sentir medo, pois se tiver medo, irá hiperventilar, o que aumentará a narcose por nitrogênio e o envenenamento por oxigênio. Por isso quando você solta o pino, tem que conseguir diminuir o ritmo respiratório, respirando mais lentamente do que o normal. É um recorde mental muito mais do que físico. Eu estudei Zen e isso me ajudou a sobreviver enquanto várias pessoas morreram tentando quebrar esse recorde.

Outra coisa interessante é que em quase todas as 6 vezes que eu quebrei o recorde eu tive uma espécie de iluminação espiritual, como se eu pudesse de repente entender o mundo como um todo, e isso foi a sensação mais incrível que eu já experimentei. Eu contribui com esta experiência para um livro onde haviam pessoas que se afogaram, foram eletrocutadas, falando sobre a experiência pós vida, e eu vi que tinha experimentado exatamente o mesmo fenômeno. Eu pude me lembrar deste momento incrível, mas não do que eu fiz no momento seguinte. É um recorde que eu tenho muito orgulho de ter alcançado, mas que eu não recomendo para ninguém, hoje seria uma bobagem tentar faze-lo, as chances de dar errado são enormes e também não há uma justificativa científica para faze-lo.

 

 

 

Conte para nós sobre o seu recorde de distância debaixo d’água

Fui inspirado por Fred Balsamare, que nadou o Estreito de Gibraltar entre outros, e decidi quebrar este recorde também. Treinei por alguns anos, principalmente em Bimini, em frente a praia. Eu acordava antes do amanhecer, colocava uns 4, 5 tanques a uns 10 pés e ficava nadando de um lado para outro, debaixo d’agua, trocando tanques e nadando sem parar, o que era bem entediante. A logística do recorde era tão complicada quanto a natação em si. Eu tinha um barco de liveaboard puxando um barco pequeno que tinha uma gaiola pendurada carregando os cilindros de mergulho. Eu tinha que nadar atrás desta gaiola, onde haviam mergulhadores de segurança. A cada 30 minutos vinha um mergulhador que trocava meu cilindro por um novo, bombeava água aquecida para dentro de minha roupa, pois apesar da temperatura do mar estar a 85 graus F., depois de nadar por quase 20 horas meu corpo ia perdendo calor, e me davam líquidos para beber. Supostamente haveria um tipo de cordão umbilical preso a gaiola, iluminação, eu teria comunicação sem fio, tudo seria bem sofisticado. Porém quando a gaiola foi para a água nada funcionou conforme o previsto e eu decidi fazer mesmo assim. Então quando começou a anoitecer não havia nenhuma luz, e tive que prender vários glow sticks no meu corpo, parecendo uma enorme isca no oceano. Eu estava tão fatigado que comecei a ter câimbras, a vomitar, até que um certo ponto eu tiver que olhar para trás para ter certeza que minhas pernas ainda estavam se mexendo, pois eu não sentia mais nada.  Minha intenção era nadar 100 milhas, mas começou a ficar perigoso, o mar estava agitado,  e o que terminou as 66 milhas foi que  eu estava ficando desidratado e eles misturaram água do mar na minha água para beber. Eu comecei a convulsionar e não podia mais nadar, mas há havia quebrado o recorde de qualquer forma, por 20 e poucas milhas, totalizando 66.  Enfim, estes são meus dois recordes, válidos até hoje.

Eu também fiz (e faço) busca a tesouros, filmes, mergulho recreativo, enfim, tudo que é relacionado ao mergulho, e ainda amo tudo isso, como se fosse a primeira vez.

 

 

E depois da operação em Grand Bahama, para onde você foi?

Eu voltei para os EUA por um tempo, entrei no negócio de night clubs, promovendo shows de bandas, concertos, e nesse meio tempo eu quebrei um recorde aéreo. Sou piloto de avião, e existe algo chamado Vincent Girocópetero, que é um tipo de helicóptero feito em casa, do tamanho de uma cadeira, que voa com um pequeno motor atrás e um rotor em cima. Eu voei em um destes de West Palm Beach, Florida, até Grand Bahama, para o recorde mundial de distância e tempo sobre o mar em girocópteros. E este foi o meu recorde na aviação…

Depois eu vim para Bimini pela primeira vez e fiquei totalmente apaixonado com o lugar, Comecei o primeiro dive center em Bimni. Enquanto isso meu irmão comprou um hotel em Andros, onde começamos uma operação de mergulho,  e também em uma pequena ilha na frente de Andros, chamada Chop Cay. Era um pequeno triângulo das ilhas “ABC” , Andros, Bimini e Chop Cay. Então eu comecei a diversificar e acho que pude fortalecer a minha marca, vendendo para outras pessoas que queriam trabalhar no negócio de operação de mergulho em diversas ilhas das Bahamas. Há um ano atrás eu tive a oportunidade de voltar para Bimini. Perguntei para meu filho Neal Junior, que nasceu e viveu em Bimini, 33 anos e também está no negócio de mergulho, se ele não queria voltar para “casa” e ele disse que nada o faria mais feliz. E assim começamos a operação em Bimini.

 

 

Fale-nos mais sobre sua operação em Bimini

Meu filho Neal Junior é responsável pela operação no Bimini Sands Hotel e Marina, em South Bimini, que é a ilha menos populosa. Nós temos 200 apartamentos completos, com  sala, cozinha, 1, 2 ou 3 quartos, lofts, alguns voltados para o mar. Eu acredito que quando você tira férias para mergulhar, você está lá para descansar e não para trabalhar, então prestamos um serviço personalizado. Depois que você fizer seu check-in e  primeiro mergulho, não precisará mais mexer em seu equipamento. Nós cuidaremos dele, lavaremos, e te pegaremos na frente de seu apartamento no dia seguinte. Os dive sites são em média 10 minutos de navegação, o mais longe é 45/60 minutos. Nós temos 2 restaurantes ótimos, 3 piscinas, e o melhor de tudo, nós estamos a apenas 20 minutos de avião de Miami ou de Fort Lauderdale. Você também pode voar para Nassau, aproveitar algumas noites, e depois pegar um vôo para Bimini, experimentando dois pontos diferentes de mergulho e igualmente espetaculares.

 

 

Durante este tempo que você mergulha, o que você tem observado de mudanças no oceano?

Para quem faz o curso de mergulho, por exemplo nos EUA, e vem para as Bahamas ou qualquer outro lugar no Caribe, acha espetacular. Para mim, muitos lugares onde mergulhei há 40 anos atrás  cortam meu coração ao vê-los. É inquestionável o impacto em todos os lugares do mundo. A qualidade dos recifes de corais e da vida marinha tem deteriorado. Bimini, afortunadamente, tem sido privilegiada por conta de sua posição geográfica. É uma grande porção de terra, com poucos habitantes, onde a exportação de produtos do mar não é permitida, fazendo com que ainda exista uma grande quantidade de peixes grandes e belos corais. É uma consequência de várias coisas juntas, a pesca em grande quantidade, poluição, desenvolvimento, aquecimento global, é a “perfect storm” de coisas ruins acontecendo. Por outro lado, tenho visto locais onde os corais estão se recuperando, e é incrível como a vida marinha pode se regenerar rapidamente.  É um ciclo, e eu sou otimista que haverá um regeneração. Eu me sinto abençoado por ter começado a mergulhar em lugares que ainda eram intocados.

Outra coisa interessante é pensar que desde quando a gente nasce até quando morre, somos prisioneiros da gravidade no Planeta Terra, exceto para dois tipos de pessoas: astronautas e mergulhadores autônomos.  Nós podemos experimentar a sensação de não ter peso, e é muito mais fácil ser um mergulhador do que um astronauta…risos … Apesar de toda competição com outras atividades e esporte de aventura, eu o desafio a me apresentar um adolescente, levá-lo para o mar, colocá-lo debaixo d’água, respirando ar comprimido, experimentando a falta de peso, e ele não voltar completamente encantado por isso. Nós ainda temos o esporte mais excitante do mundo, e os lugares mais excitantes do mundo onde você pode praticá-lo. Tantas ilhas e tão pouco tempo.

 

 

Você tem algo mais a nos dizer?

Sim, eu tenho um avião para pegar daqui a alguns minutos…risos.

 

 

Fotos: Divulgação

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