Peixes (só) do Brasil


Da Redação
30/03/2016

Com 8.500 km, a Zona Costeira Brasileira abriga moradores 100% brasileiros

 

 

O primeiro mergulho em um novo destino a gente nunca esquece. Aquela sensação de que tudo ao nosso redor é novo, estranho e belo faz os minutos embaixo d’água passarem como segundos. Para os fotógrafos sub novos encontros são um prato cheio e saboroso. Buscar “aquela” foto de um novo animal, com forma e cor ainda não registrados torna-se mais do que um objetivo: uma missão. O puro prazer de encontrar um novo e belo animal, frente a frente, é algo que atrai milhares de turistas de natureza no mundo todo, seja dentro ou fora d’água. Caso extremo são os observadores de aves, que se emocionam com cada nova espécie adicionada a sua longa lista de desejos. Um turismo que movimenta milhões no mudo todo.

Pois para os mergulhadores, assim como acontece com os observadores de aves, há um lugar no mundo onde novas descobertas e o contato com uma fauna única é constante e muito especial. Este lugar, por incrível que pareça, é a costa do Brasil. Pena que ainda são poucos os turistas que sabem disso.

Quando comecei a mergulhar no Brasil, em 1997, fiquei encantado com a beleza das cores e formas dos peixes marinhos. Curioso, e iniciando o curso de biologia, logo tratei de comprar livros e guias que me ajudassem a identificar as espécies que via. Todos com fotos coloridas, na época, eram guias de peixes do Caribe. Lá estavam a foto do animal, o nome científico e o nome em inglês. O nome em português eu aprendia com os operadores de mergulho locais. Um dos mais belos peixes-papagio que eu via era grande, verde, azul e vermelho. Segundo o meu livro guia, chamava-se Sparisoma viride, ou em inglês “stoplight parrotfish”.

 

 

Eu gostava de anotar os nomes nas fotos que tirava, ainda com minha camarezinha de filme, que só funcionava até os 5m de profundidade. Curioso, e querendo confirmar se minhas descobertas estavam corretas, comecei a mostrar as fotos a um professor meu na Unicamp, o Dr. Ivan Sazima. A fama de expert do Prof. Ivan, entre alunos e professores da universidade, logo pareceu se confirmar. Cada foto que ele via, com ou sem foco, com cor ou só a silhueta do peixe, já era suficiente para identificar a espécie. E para meu espanto e decepção, muitas das minhas tentativas de nomear os peixes estavam erradas. “Este é um peixe recém descrito pela ciência, e que só vive no Brasil. Este é parecido com um do Caribe mas, na verdade, sabemos que é outra espécie. Este outro ainda não tem nome científico. Não sabemos ao certo que peixe é!”. Até o grande e comum peixe papagaio que eu fotografei estava enganosamente nomeado por mim. O belo peixe que eu tinha visto foi confirmado em 2001 como uma espécie que vive exclusivamente no Brasil! Seu nome verdadeiro: Sparisoma amplum. Meus álbuns de fotos, de mergulhador e fotógrafo iniciante, pareciam uma urna cheia de descobertas. O que acontecia era que o Brasil vivia (e ainda vive) uma época de grandes mudanças no conhecimento da sua fauna marinha.

Poucos lugares do Atlântico têm tantos novos peixes de recifes de águas rasas descritos pela ciência nas últimas décadas quanto o Brasil. Colegas biólogos descreveram mais de 20 epécies de peixes por aqui nos últimos 20 anos. Muitos deles comuns para nós mergulhadores. Apenas em 1997, por exemplo, é que o comum neon da costa brasileira ganhou um nome na ciência. Peixinho que está por toda parte, mas não era reconhecido corretamente pela ciência. Antes disso era confundido com um parente próximo do Caribe. Biólogos coletaram-no, fizeram testes de DNA e perceberam que era tão diferente do seu parente do Caribe que deveria receber um novo nome. O neon de Fernando de Noronha, por mais tempo confundido com o da costa, ganhou um novo nome somente em 2010! Outro peixinho comum na costa de São Paulo, especialmente, e que foi descrito nos últimos anos pela ciência é a donzela-jubauna, Chromis jubauna. Ganhou esse belo nome, que em tupi significa “amarelo e preto” em 1995. Outro belo que ganhou nome apenas em 2003 é o colorido peixe papagaio Sparisoma tuiupiranga. Em tupi seu nome significa “pequeno papagaio vermelho”. Foi batizado por três colegas estudiosos de peixes e um deles, o biólogo João Luiz Gasparini, contou: “acostumados a mergulhar no Brasil, suspeitávamos que nosso papagaio-vermelho era maior do que o do Caribe. Quando finalmente observamos um da Flórida, percebemos que essa diferença era mesmo muito grande”. “A análise de DNA veio só a confirmar esse fato” acrescentou.

Mas por que seria importante mudar os nomes deste peixes? Para a ciência e conservação, o trabalho de descrição de espécies, conhecido como taxonomia, é fundamental para conhecermos e preservarmos nossa fauna. Com estas descobertas recentes, hoje sabemos que 20% da fauna de peixes do Brasil só vive aqui. São as espécies chamadas de endêmicas. Originaram-se e vivem só no Brasil. A consequência disso para os biólogos e conservacionistas é que nós, brasileiros, somos os únicos responsáveis pela conservação de diversos peixes marinhos. Hoje sabemos que outros animais, como corais, esponjas, e nudibrânquios também têm muitos representantes únicos no Brasil.

Essa grande ocorrência de peixes e outros animais únicos em nossa costa, acreditam os biólogos, é em grande parte consequência da imensa quantidade de água doce despejada pelo Rio Amazonas no norte do Brasil. Essa camada de água se estende por quilômetros no Atlântico, e forma uma barreira para peixes e larvas que viriam do Caribe, nadando ou trazidas por correntes marinhas. A temperatura, salinidade e turbidez muito diferentes das do ambiente onde vivem, levam muitos possíveis colonizadores vindos do Caribe para o Brasil (e vice versa ). É uma zona do mar não tolerada por muitos animais. Assim, nossa fauna marinha vive isolada parcialmente. Um dos grandes estudiosos brasileiros da ciência que investiga a distribuição de animais, a biogeografia, é o professor Dr. Sergio Floeter, da Universidade Federal de Santa Catarina. Em 2008 Floeter publicou, junto com diversos colegas brasileiros e estrangeiros, um apanhado sobre a biogeografia de peixes do Atlântico, e  reforçou a hipótese de que o Brasil é um mundo à parte, uma “província biogeográfica” única.

Eu particularmente, enquanto mergulhador, vejo estas descobertas da ciência como um novo incentivo à prática do mergulho e, especialmente, da fotografia submarina. Encontrar e registrar animais únicos da nossa costa, muitos deles ainda não descritos pela ciência, é, ao menos para mim, uma diversão e tanto.

Recentemente estive em Arraial do Cabo, com o colega pesquisador da Universidade Federal Fluminense, o Dr. Carlos Eduardo Leite Ferreira.  Acompanhado desse expert da região, pude ver e fotografar inúmeras espécies que só vivem no Brasil, e ainda voltar com a imagens de uma possível e estranha nova espécie de peixe. Descobertas são constantes em Arraial do Cabo. O Prof Carlos descreveu uma nova espécie de peixe encontrada nessa região ainda no ano passado! E já adiantou que há muitas ainda na fila para ganhar nome novo no Brasil.

Desde o momento em que eu comecei a mergulhar até hoje, tive o privilégio de conviver com pesquisadores que me deixavam a par de cada nova descoberta. Quatro grandes espécies de peixe-papagaio que eu observava por aqui tiveram sua identidade científica revalidada apenas em 2001. Antes disso ainda eram confundidas com espécies do Caribe. Outras muito comuns, como peixes donzela, budiões, e dentões, também foram descobertas nos últimos anos. O mais divertido disso tudo é que, após eu saber que são novas espécies, as diferenças entre os peixes brasileiros e caribenhos se tornaram óbvias para mim. Manchas e formas que eu nunca tinha reparado, e que os biólogos usam para identificar estas novas espécies, hoje saltam aos meus olhos. Tive que aprender a identificar muito bem estas diferenças quando fiz as pesquisas de campo do meu mestrado e doutorado com peixes em Fernando de Noronha, e é espantoso quanta coisa mudou desde então!

Mas como um mergulhador faz para descobrir e aprender sobre estas espécies únicas do Brasil? Da mesma forma que as descobertas são recentes, mais recentes ainda são os projetos para divulgar esse conhecimento. Junto com pesquisadores brasileiros, estamos trabalhando em guias de mergulho, sites e artigos como este, que evidenciam quais espécies de peixes que vemos por aqui são únicas do Brasil. Em 2014 lançamos dois conjuntos de pranchetas de identificação de peixes marinhos que dão destaque às espécies únicas do Brasil, e mais estão a caminho. E o material está expandido no site www.brnature.com.br. Mergulhar com um bom e informado instrutor ou dive master também é uma ótima maneira de aprender. Muitos hoje se esforçam para aprender sobre a fauna e, com tantas descobertas, terão sempre que se manter atualizados.

Estamos vivendo uma época muito interessante para se mergulhar e explorar a costa do Brasil. Uma lugar onde cada ponto, até os mais comuns e visitados, podem ser totalmente re-descobertos. É hora de ler sobre nossa fauna marinha, aguçar os olhos e partir para novas descobertas e imagens!

 

Fotos: João Paulo Krajewski

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